11 Fev, 2010
“Estóico”
Rick Perera, coordenador de mídia da CARE, observa a capacidade que os haitianos têm para resistir às adversidades
Essa será a minha última contribuição para o blog - Mas certamente não será a última sobre o Haiti, um país que cresceu em meu coração. Eu vou embora amanhã, em um voo fretado para trabalhadores de agências humanitárias.
Visitei o Haiti pela primeira vez há cinco anos, após a devastadora tempestade tropical “Jeanne”. Foi uma visita nada fácil de se fazer a um país e eu odeio pensar em mim como uma pessoa que apenas notou o Haiti depois de uma grande catástrofe.
Mas vale a pena notar o Haiti, mesmo que apenas agora. Porque quando as coisas estão piores - e é difícil imaginar algo ainda pior do que o terremoto de 2010 - os haitianos demonstram um nível de coragem e resignação admirável. Dizer que o povo de Porto Princípe está conformado seria um eufemismo. Eles estão incrivelmente fortes. Apesar de muitos terem perdido pessoas muito próximas e amadas, eles colocaram o luto de lado para que pudessem lidar com assuntos mais urgentes: alimentar suas crianças, permanecer seguros em um canto escuro e perigoso de uma cidade arruinada ou acostumar-se com os inevitáveis banhos de lama da temporada de chuva.
Pode ser chocante discutir a questão de perdas pessoais com um haitiano. Os ombros estão encolhidos, mas o trabalho continua ininterruptamente. Uma frase frequentemente escutada, “É a vontade de Deus”. Alguns haitianos ainda parecem sentir-se culpados pelo desastre que se abateu sobre eles. Em cerimônias religiosas a céu aberto em toda a capital, eles arrependem-se dos pecados da nação e buscam o perdão divino.
Alguns sentem intenso pesar e simpatia por aqueles que perderam tanto, e ainda assim tentam carregar a sua dor com dignidade. Mas acima de tudo, eu sinto admiração. Haitianos são inteligentes e patriotas. Muitos- especialmente as mulheres- são incrivelmente trabalhadoras. Elas suportaram mais dor e sofrimento em três semanas do que qualquer pessoa deveria enfrentar no decorrer de uma vida, e mesmo assim mantém suas cabeças erguidas. A diáspora haitiana está renovando seu comprometimento com a pátria - voltando a dar uma mão ou se aprofundando – e ganhou fundos para apoiar aqueles deixados para trás.
Por lei, esse povo tão talentoso e trabalhador, deveria ser tão rico quanto qualquer um no planeta. Mas eles foram confrontados por problemas graves - um governo fraco, a falta de cuidados com a saúde, até a gestão desastrosa do meio ambiente. Até que esses desafios sejam enfrentados, qualquer tipo de cobrança é impensável.
Nada disso, na verdade, poderia ter prevenido um terremoto, mas certamente poderia ter limitado os danos e fatalidades. Em todo o quarteirão você vê edifícios bem construídos, que sofreram poucos danos visíveis, lado a lado a escombros de habitações mal-construídas. Corrupção e falta de regras urbanísticas são as responsáveis pela morte provocado pelo abalo sísmico.
As coisas nunca mais serão as mesmas aqui - e não deveriam. O ímpeto por um Haiti renovado deverá vir dos próprios haitianos, mas o resto do mundo precisa se comprometer firmemente com esse amável e sofrível povo, durante o tempo que for preciso.
Eu já escrevi sobre um “novo calendário” denominado A.C. e D.C. – antes e depois da catástrofe. O Haiti precisa também de um novo relógio. É zero hora.








